
Burnout e a relação com o trabalho
Você sabe reconhecer quando uma relação deixou de ser saudável para você?
Há relações que não se tornam prejudiciais de uma hora para outra. Elas podem começar com identificação, entusiasmo, investimento, reconhecimento e projetos compartilhados. Aos poucos, porém, aquilo que fazia sentido começa a exigir mais do que devolve. Os limites ficam menos claros, a disponibilidade aumenta, o descanso já não recupera e permanecer naquela relação começa a produzir consequências.
Isso também pode acontecer na relação que estabelecemos com o trabalho.
Burnout não é simplesmente estar cansado, trabalhar muito ou atravessar uma semana difícil. É um fenômeno ocupacional associado ao estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente manejado, caracterizado por exaustão, maior distanciamento mental ou negativismo em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional (WHO, 2019).
Mas conhecer essa definição não explica como uma pessoa chega até esse ponto percebendo os sinais de sofrimento e, ainda assim, permanecendo nas mesmas condições.
Nem sempre adoecemos porque deixamos de gostar do que fazemos
Uma das dificuldades para reconhecer que a relação com o trabalho deixou de ser saudável está justamente no fato de que sofrimento e investimento podem coexistir.
Uma pessoa pode gostar profundamente da profissão e estar adoecendo. O trabalho pode continuar sendo fonte de realização, reconhecimento e identidade enquanto as condições em que ele acontece já produzem sofrimento (DEJOURS, 2004).
Reconhecer essa coexistência é importante porque permanecer não significa necessariamente ausência de sofrimento, assim como adoecer não significa necessariamente ter deixado de gostar do que se faz (MASLACH; LEITER, 2016).
Investigar clinicamente como uma pessoa se relaciona com o trabalho não significa responsabilizá-la pelas condições que a fizeram adoecer.
A Psicologia do Trabalho pode investigar organização do trabalho, demandas, recursos, relações, liderança e riscos psicossociais. Na psicoterapia, precisamos também compreender como aquela experiência está sendo vivida por aquela pessoa.
Duas pessoas submetidas ao mesmo contexto de trabalho não necessariamente constroem a mesma relação com ele.
Além das condições objetivas, precisamos compreender o que trabalhar representa subjetivamente para aquela pessoa.
O desempenho profissional pode estar profundamente associado à identidade, ao reconhecimento e à percepção de valor pessoal. Limites podem ser reconhecidos e, ainda assim, continuamente ultrapassados quando aquilo que está em jogo não é apenas uma tarefa, mas o significado atribuído ao próprio trabalho.
Quando os primeiros sinais de sofrimento apareceram, o que fez essa pessoa continuar respondendo da mesma maneira?
Não existe uma resposta universal. O objetivo é compreender o funcionamento daquela pessoa dentro daquela relação específica com o trabalho.
Esse olhar também precisa considerar a culpa que pode aparecer quando a pessoa reconhece que está adoecendo. Em trajetórias marcadas por competência, responsabilidade e alto investimento profissional, perceber que já não consegue responder da mesma forma pode ser interpretado como fracasso pessoal, incapacidade ou falta de resistência. O risco é transformar em culpa individual um adoecimento produzido na relação com condições de trabalho que também precisam ser consideradas.
Algumas características que contribuíram para a trajetória profissional de uma pessoa podem, em determinadas condições, participar também da manutenção do sofrimento.
Responsabilidade, comprometimento e capacidade de suportar pressão não são, isoladamente, características patológicas. A questão está no contexto, na intensidade e na função que assumem.
O comprometimento, por exemplo, pode favorecer uma trajetória profissional e, ao mesmo tempo, dificultar o reconhecimento do momento em que dedicação se transforma em disponibilidade permanente. Uma característica que durante muito tempo funcionou como recurso pode continuar sendo utilizada mesmo quando as condições mudaram e seu custo se tornou maior.
O trabalho clínico passa, então, pela compreensão de quando um modo habitual de funcionar deixou de produzir apenas recursos e começou também a produzir consequências.
Reconhecer não significa necessariamente sair
Quando alguém percebe que sua relação com o trabalho deixou de ser saudável, pode surgir uma falsa dicotomia: continuar suportando ou abandonar tudo.
Nem sempre essas são as únicas possibilidades.
Há situações em que mudanças nas condições de trabalho são possíveis. Em outras, será necessário reposicionamento, estabelecimento de limites, reorganização profissional, mudança de função ou de organização. Há também situações em que permanecer poderá deixar de ser uma escolha compatível com a preservação da saúde.
A psicoterapia não deveria decidir isso pela pessoa. Seu papel é criar condições para que ela compreenda o que está acontecendo, reconheça os fatores envolvidos, identifique seus limites, avalie possibilidades e consequências e construa escolhas mais conscientes.
Reconhecer que uma relação deixou de ser saudável significa conseguir olhar para o que ela se tornou, compreender o que a mantém e recuperar a possibilidade de decidir conscientemente o que fazer diante disso.
Se você não precisasse provar nada através do trabalho, ainda escolheria viver essa relação da mesma forma?
