
Burnout não entra no cockpit sozinho.
Em quais condições essa pessoa está conseguindo trabalhar?
Na aviação, falar sobre sofrimento psíquico apenas como uma questão individual é insuficiente. O aeronauta exerce sua atividade dentro de um sistema no qual atenção, memória, raciocínio, percepção, comunicação e tomada de decisão participam da segurança operacional (NASCIMENTO, 2016; ICAO, 1998). Por isso, diante do esgotamento profissional, existe uma pergunta que considero mais importante do que simplesmente saber se alguém ainda consegue trabalhar: em quais condições essa pessoa está conseguindo trabalhar? Porque continuar exercendo uma função não significa necessariamente continuar dispondo dos mesmos recursos para exercê-la. E é justamente nesse intervalo - entre continuar operacionalmente funcional e continuar funcionando nas mesmas condições - que Burnout, Fatores Humanos e segurança de voo começam a conversar.
Em 2016, participei da construção teórica e técnica de uma pesquisa sobre Burnout, tomada de decisão e segurança de voo, posteriormente aplicada em campo com 91 profissionais técnicos aeronautas nos setores de Despacho Operacional da GOL Linhas Aéreas. O estudo investigou fatores condicionantes para a Síndrome de Burnout e sua relação com tomada de decisão e segurança de voo, utilizando o Maslach Burnout Inventory (MBI). Os resultados exigiam uma leitura cuidadosa. A pesquisa encontrou fatores associados às dimensões de Burnout entre os profissionais avaliados, mas o próprio trabalho estabeleceu uma limitação importante: um instrumento e uma breve entrevista não eram suficientes para estabelecer diagnóstico da síndrome. Não se trata de estabelecer uma equação simplista: Burnout = acidente. Acidentes e incidentes aeronáuticos são fenômenos complexos e multifatoriais. Fatores Humanos participam desse sistema ao lado de diferentes condições operacionais, organizacionais e individuais. A questão é compreender o que acontece quando fatores relacionados ao esgotamento começam a alcançar funções humanas que também participam da segurança da operação (NASCIMENTO, 2016; DELIGKARIS et al., 2014). Na amostra estudada, 65% dos profissionais apresentaram alteração em pelo menos uma das três dimensões investigadas pelo MBI, e 29 participantes apresentaram níveis moderados ou altos de exaustão emocional. O dado não autorizava diagnosticar Burnout nesses profissionais.
Mas autorizava uma pergunta importante sobre risco.
O problema não começa quando o piloto se afasta do cockpit.
Tomada de decisão não acontece isoladamente das condições de quem decide. No referencial utilizado no trabalho, fadiga e estresse ocupacional apareciam relacionados à redução do desempenho físico e mental, podendo alcançar fenômenos psicológicos como atenção, memória e raciocínio lógico - recursos diretamente envolvidos na tomada de decisão (NASCIMENTO, 2016; DELIGKARIS et al., 2014). Isso muda a maneira de formular a questão. Em vez de perguntar apenas “esse profissional ainda consegue exercer sua função?”, podemos perguntar: “alguma coisa mudou na maneira como ele está exercendo sua função?” Essa diferença é importante porque existe um território considerável entre pleno funcionamento e incapacidade. E segurança operacional não deveria começar a olhar para o fator humano somente quando esse território inteiro já foi atravessado. Na discussão dos resultados do meu estudo, a exaustão emocional recebeu atenção justamente por sua possível relação com situações em que a mobilização emocional é intensa e a tomada de decisão precisa acontecer sob condições críticas. Isso não significa afirmar que exaustão emocional necessariamente produzirá uma decisão equivocada.
Significa reconhecer que uma alteração relevante em recursos envolvidos no desempenho humano merece ser considerada quando esse mesmo desempenho integra a segurança de um sistema.
Segurança também é perceber quando alguma coisa mudou.
Um dos princípios que mais me interessa na segurança operacional é a possibilidade de atuar antes da consequência. No meu trabalho, o SGSO já aparecia relacionado à identificação e ao gerenciamento de riscos por meio de procedimentos proativos, preditivos e reativos. A conclusão também defendia a necessidade de aprofundar a investigação dos fatores presentes no contexto laboral do aeronauta que pudessem prejudicar a tomada de decisão. Essa lógica também pode ser aplicada à saúde mental. O piloto é treinado para reconhecer alterações, conferir parâmetros, identificar condições que possam comprometer uma operação e agir antes que elas ultrapassem margens de segurança.
Existe uma cultura inteira construída sobre uma premissa fundamental: não esperar que uma condição se transforme em consequência para começar a tratá-la como risco.
Mas existe um componente do sistema que não aparece no painel: o próprio piloto. E talvez uma das condições mais difíceis de identificar seja justamente aquela que não produz um alerta luminoso, não aparece em um instrumento e ainda permite que ele diga: “Eu consigo voar.” Conseguir executar uma atividade, entretanto, não significa necessariamente estar executando-a nas mesmas condições. Não se trata de retirar do aeronauta sua autonomia, questionar sua competência ou transformar sofrimento psicológico em incapacidade. Trata-se de aplicar ao fator humano a mesma lógica preventiva que sustenta a segurança operacional: identificar alterações antes que elas comprometam recursos importantes para a operação. Porque Burnout não entra no cockpit sozinho. Quando um piloto entra no cockpit, suas condições físicas, cognitivas e emocionais integram uma operação que envolve também uma tripulação e passageiros (NASCIMENTO, 2016; ICAO, 1998). É justamente por isso que saúde mental também precisa ser compreendida sob a perspectiva da segurança de voo. A questão não é se um piloto com Burnout pode voar. A questão é compreender quando alterações no seu funcionamento começam a alcançar recursos que também participam da segurança de voo. E talvez a pergunta mais importante seja justamente aquela que abre a próxima rota:
Se você foi treinado para reconhecer tudo aquilo que pode comprometer a segurança do seu voo, por que seria diferente quando a condição que precisa ser reconhecida está em você?
