
Mas eu amo voar.
Quando uma profissão se torna fonte de prazer e identidade.
Se você foi treinado para reconhecer tudo aquilo que pode comprometer a segurança do seu voo, por que seria diferente quando a condição que precisa ser reconhecida está em você?
Porque talvez reconhecer o sofrimento seja particularmente difícil quando aquilo que está produzindo sofrimento também é fonte de prazer, realização, reconhecimento e identidade.
Quando uma profissão se torna fonte de prazer e identidade.
A Psicodinâmica do Trabalho, desenvolvida por Christophe Dejours, permite compreender o trabalho para além de sua dimensão produtiva. Trabalhar não significa apenas executar uma atividade em troca de remuneração. O trabalho mobiliza o sujeito, participa da construção de sua identidade e pode constituir fonte tanto de prazer quanto de sofrimento (DEJOURS, 2004). O reconhecimento ocupa um lugar importante nessa dinâmica. Quando o investimento realizado no trabalho encontra reconhecimento, aquilo que o sujeito faz pode adquirir sentido e participar da maneira como ele próprio atribui valor à sua trajetória profissional (DEJOURS, 2004). Na aviação, essa relação pode assumir uma intensidade particular.
“Eu trabalho como piloto.” “Eu sou piloto.”
Na segunda afirmação, a profissão não descreve apenas uma atividade. Ela já participa da maneira como aquele profissional se reconhece e é reconhecido socialmente. A construção dessa identidade não acontece por acaso. A formação e a experiência acumulada progressivamente consolidam um lugar profissional que pode produzir pertencimento, realização e reconhecimento. E existe prazer em voar. Por isso, quando a relação com o trabalho começa a produzir sofrimento, o conflito não necessariamente aparece como rejeição à profissão. O profissional pode continuar atribuindo valor ao que faz mesmo quando suas condições de trabalho ou seu próprio funcionamento já começaram a apresentar sinais de desgaste.
É possível amar voar e estar adoecendo.
Prazer e sofrimento não são condições mutuamente excludentes na relação com o trabalho.Uma condição não invalida a outra. Essa compreensão é particularmente importante porque o sofrimento relacionado ao trabalho não precisa surgir apenas quando desaparecem o prazer ou a realização profissional. O vínculo com a atividade pode permanecer preservado enquanto as condições nas quais ela é exercida começam a exigir recursos que já não são recuperados da mesma maneira. É justamente nesse ponto que o amor pela profissão pode dificultar a percepção do limite. Para um profissional cuja identidade está fortemente vinculada à aviação, reconhecer sofrimento pode ser interpretado como uma ameaça à continuidade da própria trajetória profissional. Essa associação pode favorecer a postergação do reconhecimento de limites e da procura por ajuda (MINORETTI, 2025). O sofrimento passa, então, a ser tolerado não necessariamente porque seja pequeno, mas porque reconhecer sua importância parece colocar algo muito valioso em risco. A capacidade de continuar trabalhando pode reforçar essa percepção.
“Eu sempre dei conta.”
Enquanto ainda é possível desempenhar a atividade, o próprio desempenho pode ser utilizado como evidência de que nada suficientemente importante está acontecendo. Mas continuar dando conta não significa necessariamente continuar bem.
No artigo anterior, discutimos como alterações no funcionamento psicológico podem alcançar recursos humanos relevantes para o desempenho e para a segurança de voo. Aqui acrescentamos outra dimensão ao mesmo fator humano: a relação subjetiva que o profissional estabelece com o próprio trabalho. Amar a profissão não provoca Burnout. Também não protege alguém automaticamente do sofrimento relacionado ao trabalho.
Amor pelo trabalho não é fator de imunidade psicológica.
Essa distinção impede duas simplificações. A primeira seria transformar o vínculo intenso com a profissão em causa do adoecimento. A segunda seria utilizar esse mesmo vínculo como evidência de que o adoecimento não pode estar acontecendo. O que precisa ser compreendido é a relação entre o sujeito, seu trabalho e as condições em que esse trabalho é realizado. Quando essa relação começa a produzir sofrimento persistente, reconhecer a mudança não diminui a competência profissional nem apaga o prazer construído ao longo da carreira. Significa apenas reconhecer que alguma coisa precisa de atenção. E essa percepção pode ser particularmente difícil em uma cultura profissional na qual responsabilidade, desempenho e capacidade de responder adequadamente às exigências da operação possuem valor evidente.
Suportar, nesse contexto, pode facilmente ser confundido com estar bem. Reconhecer um limite também é preservar.
Para quem construiu parte importante de sua identidade em torno da aviação, reconhecer sofrimento pode carregar implicitamente o medo de perder aquilo que levou anos para construir. Esse medo ajuda a compreender por que procurar ajuda, estabelecer limites ou admitir uma alteração no próprio funcionamento pode ser postergado (FAA, 2024). Mas reconhecer sofrimento não equivale a incapacidade profissional. Assim como estabelecer um limite não significa abandonar uma carreira. Confundir essas experiências pode produzir exatamente o contrário da prevenção: esperar que o sofrimento se intensifique até o ponto em que já não possa ser ignorado. No primeiro artigo desta série, partimos de uma premissa da segurança de voo: não esperar que uma condição se transforme em consequência para começar a tratá-la como risco. A mesma lógica merece alcançar o fator humano. Reconhecer precocemente uma alteração no próprio funcionamento não representa fraqueza ou falta de compromisso com a profissão. Representa a possibilidade de intervir enquanto ainda existem recursos para compreender o que está acontecendo e decidir como lidar com isso. É possível, portanto, sustentar duas afirmações sem qualquer contradição:
Eu amo voar. E alguma coisa em mim precisa de atenção.
Reconhecer a segunda não apaga a primeira. Pode ser justamente uma maneira de preservá-la. Porque uma profissão pode ocupar um lugar importante na construção da identidade sem precisar ocupar toda a identidade do sujeito.
Ser piloto pode fazer parte de quem você é. Mas você precisa continuar existindo para além daquilo que faz.
